João Guilherme Vargas Neto

João Guilherme Vargas Neto

A cúpula do movimento sindical brasileiro encontra-se dividida a respeito do governo Dilma e de sua destituição. Esta mesma cúpula encontra-se menos dividida a respeito das expectativas sobre um governo Temer.

Menos dividida porque somente um reduzido setor, que aposta todas as suas fichas em cargos sem relação alguma com o programa a ser executado, continua iludido sobre o que os eventuais novos governantes pretendem fazer.

Mas, pressionando ambas as divisões (a atual e as futuras) existe a base do movimento que sustenta a pauta unitária de resistência.

Esta base está, por hora, apreensiva, atônita e aparentemente passiva. Mas ela aprendeu nos anos de vacas gordas, sobre o peso da unidade de ação de seus dirigentes e forçará, uma vez provocada e desafiada, a cúpula a agir segundo seus interesses de classe, que são vitais.

Vou dar um exemplo: uma das manobras que estava sendo urdida pela equipe de Temer, a manobra de se apoiar nas experiências dos metalúrgicos do ABC e da capital de São Paulo para fazer predominar, em geral e sem garantias, o negociado sobre o legislado, já fez água. Representantes qualificados de ambos os setores afirmaram que, nas condições atuais, suas pretensões de fazer o negociado prevalecer sobre o legislado, não se sustentam. É a base forçando a unidade, a resistência e o bom senso.

Também é impressionante comparar a gravidade da crise econômica e da recessão (basta pensar nos 12 milhões de desempregados) e a gravidade da crise institucional (com o STF agindo como um verdadeiro poder moderador da época do Império) com a relativa inexistência de crise social (saques, tumultos, greves etc.), para se perceber que ainda existe um colchão social que amortece as quedas (de emprego, de renda, de formalização). É sobre esse colchão que a base do movimento sindical ainda se apoia em seu aparente mutismo e é na falta dele que ela passará a exigir de seus dirigentes posições unitárias de protesto, de resistência e de luta.

A reunificação da cúpula será uma exigência adicional da base que resistirá aos ataques diretos ou disfarçados. O tropeção pode forçar um passo a frente.

João Guilherme Vargas Neto é consultor de diversas entidades sindicais e membro do corpo técnico do Diap (Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar).
E-mail: joguvane@uol.com.br