As eleições legislativas e a crise Antonio Neto (*)

A recente eleição dos presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado Federal deixou algumas lições políticas que precisam ser registradas.

O fato do PMDB ter ficado com o comando das duas casas legislativas mexeu um pouco, é verdade, com o equilíbrio de forças entre as duas principais legendas de sustentação do governo Lula, mas não representou nenhum abalo, muito menos ruptura entre elas, ainda que alguns setores da mídia tenham tentado insuflar uma reviravolta na posição do PT de apoio a Temer na Câmara em razão da candidatura do senador Sarney no Senado.

Os que ainda não assimilaram a aliança PT-PMDB, que há dois anos dá sustentação política, legislativa e administrativa ao atual governo, mais uma vez, aproveitaram-se do episódio para insuflar o distanciamento entre essas duas agremiações.

Gastaram muito papel e tempo de mídia para escrever a falar que uma provável eleição de Sarney – que acabou se confirmando – provocaria, inevitavelmente, a “traição” dos deputados petistas que haviam se comprometido em apoiar Temer.

Felizmente, os deputados e senadores dos dois partidos tiveram maturidade suficiente para separar o joio do trigo e perceber que os processos eleitorais deveriam transcorrer de forma independente. Foi o que aconteceu. E, ao contrário do que apostavam alguns, a eleição de Sarney, anunciada antes, não contaminou a de Temer, que obteve o apoio formal da bancada de 14 partidos políticos, inclusive os de oposição, e a confirmação do acordo realizado pelo PMDB e o PT há dois anos atrás que alguns consideravam impossível de ser concretizado.

O governo do presidente Lula, notadamente em seu segundo mandato, retomou o crescimento econômico e a geração de empregos, ampliou como nunca os níveis de investimento público através do PAC, reforçou a posição estratégica das empresas estatais, intensificou os programas sociais, valorizou o salário mínimo e outros instrumentos vitais de distribuição de renda e riqueza, e teve um papel decisivo na criação da Unasul para o fortalecimento das relações econômicas, comerciais e políticas com os demais países da América Latina e Caribe e outros países emergentes, entre outras medidas.

E, em que pese a resistência do Banco Central de reduzir os juros de escorcha e dos bancos de manter o “spread” nas alturas e a ausência de uma política de controle do câmbio, que alimenta a remessa de lucros para o exterior e, consequentemente, a ação especulativa sobre nossa economia e os rombos crescentes em nossas contas externas, a popularidade de Lula ultrapassou a casa dos 80%, numa demonstração de que a postura firme e otimista do Presidente continua sendo fundamental para neutralizar os efeitos da mega-especulação que mergulhou os países desenvolvidos, principalmente os EUA, na maior crise da história.

Nesse ponto, é importante destacar que a coalizão PMDB-PT é fundamental para que o país continue no caminho das mudanças e reúna condições políticas para reduzir aceleradamente a taxa selic e os spreads bancários, e passar a ter um controle efetivo sobre os capitais especulativos, medidas indispensáveis ao crescimento da economia e à promoção da justiça social.

Essa é a nossa expectativa, a nossa esperança e a nossa luta. Seguramente, o resultado das eleições legislativas reforçou essa tendência. Melhor para o país e para as forças comprometidas com o trabalho e a produção.

(*) Presidente da Central Geral dos Trabalhadores do Brasil (CGTB) e do SINDPD-SP. Membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Industrial.