A morte da libélula

Vicente Dianezi Filho

Quando Magrão desapareceu em 1975, o arquiteto Vilanova Artigas do alto da sua sensibilidade artística não conteve a indignação: “Como tiveram coragem de matar uma libélula!”, desabafou. Magrão era o apelido de José Montenegro de Lima, uma pessoa doce, suave, carismática. Era filho do pedreiro e festeiro Francisco Montenegro de Andrade, conhecido em Itapipoca, no interior do Ceará, como Chico Vermelho. Analfabeto de pai e mãe, Francisco recebeu essa alcunha em 1945 quando, na festa da redemocratização do país, entrou na luta para eleger os candidatos do PCB. Bastava ver um tamborete desocupado na Praça da Feira para que subisse e brindasse os presentes com um discurso a favor de um governo popular e socialista.

Magrão tinha uma estatura espichada. Algo mais que 1,90 metro de altura. Desde menino se destacava entre os amigos e atraía a atenção dos populares quando ajudava a moer cana de açúcar na barraca onde sua mãe, Maria dos Santos Montenegro, servia comida pronta para sustentar os 12 filhos. Ele era o primogênito, nascido em 27 de outubro de 1943. Quando foi sequestrado e desaparecido numa rua qualquer de São Paulo tinha apenas 32 anos de idade.

Fez o curso primário na Escola Normal Joaquim Magalhães de Itapipoca e, para continuar os estudos, ganhou abrigo na residência de um desembargador na capital Fortaleza, em troca dos seus serviços para manter a criação de canários belgas que o magistrado possuía na cidade. Prestou concurso e ingressou no ginásio industrial, hoje Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará. Formou-se artífice em marcenaria, passando automaticamente para o ensino médio, e se matriculando no curso de técnico em Construção de Estradas.

À essa altura já era uma liderança estudantil. Os colegas o escalavam naturalmente na luta cotidiana das reivindicações. Militante do Partido, ajudou a fundar, em 1963, a União dos Estudantes Técnicos do Ceará. Nesse mesmo ano, destacou-se durante os trabalhos do V Congresso da União Nacional dos Estudantes Técnicos Industriais (Uneti), realizado em Fortaleza. Foi eleito para a direção da entidade, sediada no prédio da União Nacional dos Estudantes (Une), na praia do Flamengo, no Rio de Janeiro. Em julho de 1963, transferiu-se para o mesmo curso na Escola Técnica Nacional do Maracanã, hoje Centro Federal de Educação Tecnológica. Como diretor da Uneti era necessário residir no Rio de Janeiro.

A atividade política intensa levou-o a abandonar os estudos. Desdobrava-se na missão de fortalecer nacionalmente a Uneti, viajando frequentemente para São Paulo, Curitiba ou Belo Horizonte, assim como para cumprir as tarefas que o Partido lhe destinava. Ainda em 1963, em outubro, foi eleito Secretário de Agitação e Propaganda do Comitê dos Estudantes Secundaristas da Guanabara. Com o golpe militar de 1964, caiu na clandestinidade. Foi indiciado no Inquérito Policial-Militar instaurado contra as direções da Une, Uneti e União Brasileira de Estudantes Secundaristas (Ubes). Mesmo assim, manteve assídua prática política. Em janeiro de 1965, foi eleito para a direção da Juventude Socialista do Partido Socialista Brasileiro (IPSB). Perseguido implacavelmente, foi indiciado no Inquérito Policial-Militar aberto pelo 1º Distrito Naval contra a organização do Partido no Rio de Janeiro.

Em meados de 1966, integrou a turma que foi para Moscou cursar a escola de quadros no Instituto Superior de Estudos Sociais mantido pelo Partido Comunista da União Soviética (PCUS). Ao longo de dois anos, compulsou livros e apostilas que versavam sobre a filosofia e a economia marxistas. Debruçou-se sobre os ensinamentos de materialismo dialético. Retornou ao Brasil fazendo escala em Praga de onde foi evacuado devido à intervenção dos soviéticos no Partido Comunista da Tchecoslováquia. No retorno ao Rio de Janeiro, o Partido lhe incumbiu da organização da Secretaria Juvenil que era vinculada ao Comitê Central sob a responsabilidade da dirigente Zuleika Alembert e posteriormente de Hércules Correa.

Deslocado para São Paulo debruçou-se sobre o trabalho de reestruturação do Comitê Universitário paulista, que fora dizimado tanto pela reação, como pelo fiasco das manifestações de 1968 e, principalmente pela proposta da luta armada de Carlos Marighella e Joaquim Câmara Ferreira, criadores da ALN (Aliança Libertadora Nacional). Ao mesmo tempo, Magrão iniciou a rearticulação comunista do movimento secundarista, levou a juventude para a participação em associações de amigos de bairros e para a criação e fortalecimento da Juventude do MDB. Nos bairros de São Paulo, Rio de Janeiro e de cidades interioranas orientava a juventude a desenvolver movimentos culturais a exemplo do CPC que havia frequentado no Rio de Janeiro na sede da UNE .

Em 1973, foi incumbido da tarefa de organização da delegação brasileira para o Festival Mundial da Juventude Democrática promovido pela FMJD em Berlim Oriental, à época capital da República Democrática Alemã, também chamada de Alemanha Oriental. Carismático, mente arejada, suave como uma libélula na caracterização de Artigas, Magrão privilegiava todos os contatos, respeitava os contrários, ouvia e conversava com quem fosse tanto à esquerda quanto a sua direita. A delegação que montou para o Festival foi um exemplo de unidade e de democracia socialista. Dela participaram José Luiz Del Roio integrante da ALN que se encontrava exilado no Chile, José Serra também exilado naquele país e pertencente à Ação Popular (AP) e o pastor evangélico James Whrite entre outros convidados de origem política as mais variadas. Magrão era querido por todos que tiveram oportunidade de conhecê-lo no Brasil e no Exterior.

Quando a reação desbaratou as gráficas do Partido em São Paulo e no Rio, em janeiro de 1975, coube a Magrão a responsabilidade de ajeitar a produção do Voz Operária, mensário oficial dos comunistas. Recebeu essa tarefa, em Moscou, em fevereiro de 1975, e juntamente uma maleta forrada com 60 mil dólares. Retornou ao Brasil via Lund, cidade do sul da Suécia, onde se reuniu com exilados brasileiros. Ao chegar viabilizou, de imediato, a impressão do jornal com os recursos oferecidos pelo Instituto de Pesquisas Exata, empresa que havia constituído desde 1972 com a participação de vários comunistas, no bairro paulistano do Cambuci, para dar apoio financeiro ao trabalho de Juventude no país.Num mimeógrafo destinado à elaboração de questionários de pesquisa de mercado, foram impressas as edições de Voz Operária de fevereiro, março e abril de 1975. Esta foi a última com data de capa abril/maio. Foi o último Voz Operária feito no Brasil.

Magrão havia desafiado as forças da reação. Um mês antes, os gorilas tendo à frente o ministro da Justiça, Armando Falcão, haviam apresentado ao país, como um troféu, em cadeia nacional de televisão, a queda da estrutura gráfica do Partido. A circulação do jornal tornou Magrão um alvo ainda mais vulnerável. Apesar disso, ele ficou por aqui e organizou a saída para o exterior de diversos dirigentes em risco, apoiando-se em esquemas que foi montando nos contatos internacionais que cultivara especialmente com a Juventude Comunista da Argentina.

Magrão era safo. Raramente permanecia mais de quatro ou cinco dias a pernoitar num mesmo local, seja em casa de companheiros, de amigos ou nos aparelhos que estruturou, diga-se, sem apoio financeiro do Partido – que lhe destinava apenas um salário mínimo mensal e faltante por muitos meses. Pulou de galho em galho até 1973 quando os resultados financeiros do Instituto de Pesquisas permitiram a locação de um aparelho na rua Fradique Coutinho, no bairro paulistano de Pinheiros. Mas logo se revelou muito vulnerável. Primeiro porque o bairro era muito frequentado por comunistas. Em segundo lugar, porque esses comunistas, no ano seguinte, fundaram a Escola de Samba Pérola Negra. Ignorando, é claro, o endereço de Magrão sediaram a quadra a menos de 200 metros do aparelho. Em segundo lugar, ele era apaixonado por samba, cerveja e mulher. Como uma sombra, surgia e sumia na quadra da escola. Desde 1972 Magrão podia ser visto pulando atrás de um trio elétrico no carnaval de Salvador.

Como era necessária a mudança de Pinheiros, Magrão foi para a rua Caio Prado, no centro da cidade, região povoada por estudantes. Mas os zeladores passaram a ser orientados pela polícia para registrar e informar diariamente qualquer movimentação nos prédios especialmente os nomes de novos moradores. Impôs-se nova mudança, desta vez para a rua Brigadeiro Galvão, no bairro da Barra Funda, com porteiro eletrônico. Este era o aparelho que Magrão utilizava quando foi sequestrado no centro da cidade de São Paulo no dia 29 de setembro de 1975. Genivaldo Matias da Silva que para lá havia se mudado e se preparava para ser motorista a serviço do Partido, conta que, nesse dia, uma segunda-feira, saiu pela manhã com Magrão. Vinham tomando o cuidado de sair e chegar juntos depois de se encontraram num ponto longe do local. Nesse dia, Magrão não compareceu ao ponto marcado. Genivaldo se recolheu e uma semana depois retornou ao local e foi preso.

Magrão não tinha familiares nem em São Paulo, nem nas proximidades do estado. A família continuava estabelecida em Itapipoca, 132 quilômetros distante da capital do Ceará. Assim, para houvesse registro oficial do seu desaparecimento, por orientação do advogado, Genivaldo mentiu na Justiça Militar ao declarar que vira Magrão nas dependências do Doi-Codi do II Exército. Na verdade, Magrão foi levado para um sítio em Araçariguama, no interior de São Paulo, um porão de torturas mantido clandestinamente pelo Exército Brasileiro.

Essa informação que nunca foi desmentida é do sargento Marival Chaves do Doi-Codi de São Paulo. Ele fez essa revelação em entrevista para a revista Veja publicada em 18 de novembro de 1992.

 O último corpo que sei ter sido jogado da ponte (no rio Avaré no interior de São Paulo) é o de José Montenegro de Lima, mas esse é um caso especial. Porque mostra que dentro dos órgãos de repressão também havia uma quadrilha de ladrões. Logo depois da invasão da gráfica do Voz Operária, Montenegro recebeu do partido 60 mil dólares para recuperar a estrutura de impressão do jornal. Uma equipe do Doi prendeu Montenegro, matou-o com a injeção, e depois foi na sua casa pegar os 60 mil dólares. O dinheiro foi rateado na cúpula do Doi.

 Em Documento da Divisão de Informações do Dops de São Paulo, de 19 de abril de 1976, Magrão é citado, em declarações de várias pessoas, como coordenador das reuniões do PCB, em meados de 1972, como dirigente do PCB e também integrado à base da Escola de Comunicações e Artes da USP. Em outro documento de informações, de 27 de julho do mesmo ano, consta que Montenegro estaria tentando montar uma base com os estudantes de Arquitetura, em meados de 1969, e que distribuía o jornal Voz Operária. Há referência de artigos de jornais, onde fora citado por ser indiciado em inquérito e por querer reorganizar o PCB. Informa também que a vítima fazia parte da base dos estudantes de História da USP e que, em 22 de janeiro de 1976, o Diário Popular, jornal de grande circulação na capital paulista, publicara uma relação de detentos, afirmando que ele fora preso em 30 de setembro de 1975 e, desde então, não se tinha notícias do seu paradeiro. O documento possui o código das pastas de onde foram tiradas as informações.

Em sua homenagem, a cidade do Rio de Janeiro deu o seu nome a uma de suas ruas no bairro da Paciência.

Documentos consultados

www.desaparecidospoliticos.org.br
Dossiê dos Mortos e Desaparecidos Políticos a partir de 1964, op. cit.
Arquivos do IEVE.
Caso 138/96 na CEMDP.
Movimento Tortura Nunca Mais
Entrevistas com comunistas e amigos que conviveram com Magrão inclusive o autor do texto.