Assassinato de Nestor Vera tem réu confesso

Nestor-Vera

 

Vicente Dianezi Filho

Nestor Vera nasceu na cidade de Ribeirão Preto, interior de São Paulo, no dia 19 de julho de 1915. Era o terceiro dos dez filhos de Manoel Vera e Pilar Velasques que no início da década de 1930 se mudaram para Santo Anastácio, município da região da Alta Sorocabana, para ganhar a vida trabalhando em fazendas de café. Foi em Santo Anastácio que Nestor Vera tornou-se liderança sindical expressiva e onde se casou com Maria Miguel Dias no dia 24 de setembro de 1938. Maria e Nestor tiveram cinco filhos, quatro mulheres e um homem.

Quando os bons ventos da liberdade varreram o mundo, soprados pelas forças que derrotaram o nazi-fascismo na Segunda Guerra Mundial, em maio de 1945, Nestor Vera já militava no Partido Comunista Brasileiro (PCB) e havia sido eleito para integrar o Comitê Municipal da agremiação em Santo Anastácio. A festa da democracia, contudo, teve vida curta e, dois anos depois, em maio de 1947, as forças da reação cassaram o registro do PCB. Nestor Vera manteve-se na atividade política regular filiando-se ao Partido Trabalhista Nacional (PTN), pelo qual se elegeu vereador nas eleições municipais do final do ano.

Novo revés surpreenderia Nestor em 1948, nem bem estreara no parlamento municipal. Acusado de ter atirado e matado um soldado na cidade, teve o mandato cassado. O fato aconteceu durante assembleia que ele liderava e convocara para criar a cooperativa dos trabalhadores rurais da cidade. A reação e a polícia, que provocaram o tumulto propositalmente, incriminaram-no, mas a sua participação na morte do soldado nunca foi comprovada. O peso da suspeita significou-lhe uma implacável caçada que o separou definitivamente dos pais e dos irmãos até sua morte em Minas Gerais – quando foi assassinado pelo delegado Cláudio Guerra, agente da ditadura civil-militar vinculado ao Dops do Espírito Santo e ao Doi-Codi do então Estado da Guanabara.

Até que chegasse a esse trágico e covarde fim, Nestor Vera prestou inestimável serviço à formação política, organização dos trabalhadores rurais e libertação do povo brasileiro. Mudou-se de Santo Anastácio, levando mulher e filhos – e passou a se dedicar exclusivamente ao Partido. Foi para Ourinhos e Campinas, cidades do interior do Estado de São Paulo e, em seguida, deslocou-se para a capital paulista. Profissional culto, político astuto e exímio conhecedor dos assuntos do campo assumiu, em 1949, a direção do jornal Terra Livre, criado pelo Partido para noticiar e debater assuntos ligados à questão agrária do país.

Sempre voltado para o campo, Nestor Vera teve um papel destacado, em 1954, na organização da União dos Lavradores e Trabalhadores Agrícolas do Brasil (Ultab). Elegeu-se seu primeiro secretário geral. Incentivava a criação e organizava associações de trabalhadores rurais que, a partir do início dos anos de 1960, transformaram-se em sindicatos. Em 1961, participou da organização do Primeiro Congresso Nacional dos Lavradores e Trabalhadores Agrícolas, realizado em Belo Horizonte.

Nos debates do evento se integrou à Comissão de Reforma Agrária, integrada por Armênio Guedes, Dinarco Reis, Alberto Passos Guimarães, Lindolpho Silva e Francisco Julião.  A declaração aprovada pela comissão e assumida oficialmente pelo congresso abordou três pontos principais: liquidação do monopólio da terra; expulsão do imperialismo norte-americano; e criação de um governo democrático de libertação nacional.

Os bons ventos das liberdades democráticas voltavam a soprar de norte a sul do Brasil. O PCB clandestino atuava abertamente e caminhava para a legalidade. A base sindical desenvolvida pela Ultab acabaria criando o lastro, em 1963, para a fundação da Contag (Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura), tendo Nestor Vera como seu primeiro tesoureiro e Lindolpho Silva, como presidente. A reação, no entanto, insistia no golpe e, no dia 1º de abril de 1964, pela força das armas, instalou a ditadura civil-militar.

A perseguição contra Nestor Vera se intensificou. Seus direitos políticos foram cassados pelo Ato Institucional nº 1. A ditadura o condenou a cinco anos de prisão porque seu nome apareceu em cadernetas de anotações de reuniões do Comitê Central do PCB. Eram documentos elaborados pelo secretário geral Luiz Carlos Prestes e foram descobertos pela polícia. Nestor caiu na clandestinidade, assumiu identidade falsa e mudou seu nome para Antônio Martins. O mesmo cuidado tomou com todos os seus, providenciando-lhes novas identidades e criando a família Martins.

Em dezembro de 1967, durante o VI Congresso Nacional do Partido, Nestor foi eleito suplente do Comitê Central, dirigindo-se em seguida para o estudo do marxismo-leninismo no Instituto Superior de Estudos Sociais, em Moscou, a “escola de quadros” do partido. No seu retorno, deslocou-se para Belo Horizonte designado para reorganizar o partido no Estado de Minas Gerais.

Em abril de 1975, justamente nas alterosas, ocorreu o sequestro de Nestor Vera. O tecelão José Francisco Neres, o Pinheiro, então membro do Comitê Estadual mineiro contou, em depoimento, que acompanhou Nestor após uma reunião no escritório do deputado Marcos Tito até a rua Rio Grande do Sul confluência com a rua dos Tamoios. Nestor iria para a rodoviária a fim de embarcar com destino a São Paulo. Agentes da ditadura o prenderam na avenida Olegário Maciel. O sequestro foi noticiado pelo Diário da Tarde, em nota do jornalista e militante do PCB José Carlos Alexandre: o farmacêutico Edgard Guerra presenciara a abordagem e viu Nestor ser encapuzado e forçado por três homens a entrar num automóvel.

Uma primeira luz sobre o assassinato de Nestor Vera veio a público no início de 2012. Em depoimento aos jornalistas Marcelo Netto e Rogério Medeiros, publicado no livro Memórias de uma guerra suja, o agente policial Cláudio Guerra afirma:

 Abril de 1975. Foi em Belo Horizonte. Nestor Vera tinha sido muito torturado e estava agonizando. Eu lhe dei o tiro de misericórdia, na verdade dois; um no peito e outro na cabeça. Quem mais participou da execução? Bem, os detetives investigadores Joãozinho Metropol e Saraiva estavam comigo. Nestor Vera já estava preso na Delegacia de Furtos, em Belo Horizonte. Ele estava bem machucado. Após tirá-lo de lá, o levamos para uma mata e demos os tiros de misericórdia. Foi enterrado por nós. (…) Matei um, mas ajudei a enterrar outros dois. Estamos falando de Nestor Vera. Ele é um dos três que eliminamos numa mata, próxima a Belo Horizonte, na estrada para Itabira. Os três foram enterrados no mesmo lugar, em covas diferentes, uma ao lado da outra, um num dia e dois em outro. Além de Vera, desconheço o nome dos demais. Lembro-me desse porque dei o tiro de misericórdia, afinal ele havia sido muito torturado e estava moribundo.

A notícia levou a Procuradoria da Republica em Belo Horizonte a abrir uma investigação sobre o caso. Agentes da Polícia Federal e Cláudio Guerra estiveram no local, mas a diligência se realizou com amadorismo e nada se descobriu. A família ainda aguarda que a procuradoria organize nova busca, desta vez com a presença de peritos forenses.

Outro possível destino do corpo de Nestor Vera foi registrado pelos jornalistas Reinaldo Cabral e Ronaldo Lapa que, em 1979, organizaram a brochura Desaparecidos Políticos para o Comitê Brasileiro pela Anistia do Rio de Janeiro. Segundo eles, os órgãos de segurança teriam trocado o corpo de Nestor por um brasileiro preso na Argentina. Eles se basearam em recortes da revista Istoé e do semanário Pasquim publicados no mesmo ano. Mas tal fato nunca foi confirmado.

O desaparecimento do corpo de Nestor é um transtorno para a família que sofre desde 1947 quando ele foi obrigado a deixar Santo Anastácio suspeito da morte do soldado. “Não merecemos morrer de novo todos os dias com essa pendência do passado”, afirma Omene Vera Martins, sobrinho de Nestor. Omene luta incansavelmente pela busca do corpo do tio para enterrá-lo junto dos pais.

Por enquanto, resta à família se conformar com as homenagens. Em 26 de junho de 2014, em Sorocaba no interior do Estado de São Paulo, o Grupo de Trabalhadores da Comissão Nacional da Verdade, integrado por dez centrais sindicais, prestou homenagem a Nestor à qual compareceram, além de Omene, os sobrinhos Walquírio, Nélson, Agripino e Neusa. Em nome do tio, receberam placa e diploma. Também as alterosas homenagearam Nestor atribuindo seu nome a uma rua no bairro da Serra Verde. E no dia 21 de março de 2015, em Belo Horizonte, militantes do PCB, da União da Juventude Comunista e de organizações da esquerda mineira participaram da solenidade de entrega da medalha da Fundação Dinarco Reis que marcou o centenário de seu nascimento de Nestor Vera. Pelo mesmo motivo, a Fundação Astrojildo Pereira, do Partido Popular Socialista, também em março, produziu um selo em alusão aos cem anos do nascimento de Nestor Vera.

Referências bibliográficas

verdadeaberta.org/mortos-desaparecidos/nestor-vera
pt.wikipedia.org/wiki/nestor-vera
pcb.org.br/fundacaodinarcoreis
www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc0804200118
Relatórios da Comissão Nacional da Verdade, Comissão da Verdade do Estado de São Paulo “Rubens Paiva” e Comissão da Verdade de Minas Gerais.