Ministério Público receberá representação formal por violação de direitos humanos pela Volkswagen

Ditadura-Volks-Angeli

Fórum dos Trabalhadores por Verdade conclui longa apuração sobre colaboração da multinacional alemã com a ditadura militar brasileira; centrais sindicais apoiam denúncia.

Pela primeira vez no Brasil uma empresa será denunciada formalmente por colaborar com o regime militar. Trata-se da multinacional alemã Volkswagen, cuja alta administração se notabilizou, durante a ditadura, por entregar longas listas de nomes de funcionários aos serviços de informação. De posse de nomes dos trabalhadores que agiam a favor da democracia e, portanto, contra o regime militar, as forças de segurança promoveram dezenas de prisões caracterizadas por arbitrariedades, torturas e, também, mutilações e mortes.

Durante as greves históricas dos metalúrgicos do ABC, no final da década de 1970 e início dos anos 1980, a Volks chegou a contratar mais de 50 homens ligados diretamente aos aparelhos de repressão, segundo o Fórum de Trabalhadores por Verdade. Eles faziam o trabalho de espionar o movimento sindical e identificar ativistas para serem perseguidos e presos.

A denúncia formal contra a Volks por colaboração com crimes de lesa-humanidade será feita no próximo dia 22, na sede do Ministério Público Federal, em São Paulo. O sindicalista Álvaro Egea, ligado à Central de Sindicatos Brasileiros coordenou os trabalhos de pesquisas que dão embasamento à denúncia.

“A Volks atentou diretamente contra a integridade física de seus trabalhadores ao manter uma colaboração direta e permanente com os órgãos de repressão, tortura e morte do regime militar”, disse Egea ao BR:

“A partir de agora, esses crimes começam a perder a impunidade”, acentuou o sindicalista.

Além da CSB, as centrais Força Sindical, UGT, Nova Centra e CTB aderiram formalmente à denúncia. A iniciativa também conta com o apoio da Conlutas Intersindical e vai ganhando a adesão de diferentes entidades ligadas as movimentos sociais.

Abaixo, texto distribuído pela CSB a respeito da denúncia contra a Volks por parceria com a ditadura:

MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL RECEBE DENÚNCIA SOBRE A PARTICIPAÇÃO DA VOLKSWAGEN DO BRASIL NA DITADURA CIVIL-MILITAR

A Volkswagen do Brasil é denunciada em representação ao MPF pela cumplicidade com o Estado nas graves violações de direitos humanos cometidas durante o período ditatorial de 1964 a 1985. É a primeira vez que uma empresa será denunciada por participação em crimes característicos de regimes autoritários no Brasil.

Por meio de pesquisa no Arquivo Público do Estado de São Paulo, foram levantados documentos que comprovam o envolvimento da empresa no fornecimento de dados dos trabalhadores de suas fábricas ao DOPS, na organização de um sistema próprio de vigilância e monitoramento do movimento sindical e do envolvimento direto na prisão e na tortura de seus empregados dentro do ambiente da empresa.

Segundo o pedido, a corporação foi cúmplice e solidária ao Estado na perpetração de crimes de lesa-humanidade, portanto imprescritíveis perante o direito brasileiro e o direito internacional, motivo pelo qual devem ser reparados pela empresa mediante indenização de cunho coletivo aos trabalhadores.

A iniciativa é do Fórum de Trabalhadores por Verdade, Justiça e Reparação, que reúne militantes e trabalhadores oriundos de entidades e centrais sindicais participantes do Grupo de Trabalho Ditadura e Repressão aos Trabalhadores, às Trabalhadoras e ao Movimento Sindical, da extinta Comissão Nacional da Verdade.

A entrega será feita em atividade pública no dia 22 de setembro de 2015, às 16h00, na sede do MPF em São Paulo – Rua Frei Caneca, 1360. Estarão presentes centrais sindicais, parlamentares, membros do Ministério Público, figuras públicas do mundo jurídico, membros de comitês e comissões da verdade, além dos próprios trabalhadores ainda vivos que foram empregados na Volkswagen e sofreram diretamente ou testemunharam os episódios de repressão.

ATENÇÃO: As/os interessadas/os em acompanhar o ato deverão enviar nome e RG para este email (secretaria@iiep.org.br) até 12h00 do dia 21/09, por exigência da segurança do prédio. Pedimos ainda que cheguem no prédio às 15h30, para facilitar a entrada

Fonte: Brasil 2 pontos